
Minha mãe sempre foi meio… Meio diferente. Sério. Desde que me entendo por gente nunca conheci alguém que chegasse aos pés dela. Não era aquelas do tipo controladoras, “às 8 da manhã você acorda, arruma a cama e troca de roupa. 9 horas tome seu café. 9:15 faça sua lição de casa…”, porém não era do tipo que me esquecia na escola ou esquecia de me chamar para o almoço. Cuidava de mim como um bem-precioso. Queria a por perto sempre.
Antes de tudo ela era minha melhor amiga. É eu sei que esse negócio de mãe ser a melhor amiga do filho é quase antiquário. Mas era mesmo. Sempre tirava uma parte de seu dia para conversar comigo. Não importava o quão ela estava ocupada no trabalho, todos os dias nós conversamos, riamos e bebíamos uma pepsi. E algumas vezes víamos um filme e comíamos uma pizza de 4 queijos. Era sua favorita. Sentávamos no sofá e perguntava-me o que tinha feito hoje e se tinha valido a pena. O porquê daquele meu olhar triste depois de um dia ruim. Sempre fui sincero ao teu lado. Sempre fui eu mesmo nos braços da minha mãe. Sabia que ela era diferente, tinha e tenho orgulho disso.
Lembro e guardo todos os conselhos sobre a vida que ela me deu. Sempre me disse que as pessoas nem sempre eram o que mostravam ser, naquela época achava bobagem, hoje já tirei a prova dos 9. Que a aparência pode te levar no topo, mas o caráter te faz permanecer lá. Que se tenho um sonho, devo ir além de sonhar, devo tentar realizar, pelo menos tentar. – Filho, muita gente ainda vai te enganar para chegar onde quer. Não se esqueça disso. E que eu o amo, mas que a mim própria.
Sua risada me contagiava, e aposto que se você passasse ao seu lado ao meio de uma gargalhada, riria também. Só em ver um breve sorriso dela, um discreto olhar tinha mais certeza de que ela, além de ter sido a melhor mãe do mundo, era também, a mais bela. Seus cabelos loiros escuros na altura dos ombros quando batiam contra o vento, a deixava melhor que qualquer diva da música em seu melhor clipe. Suas curvas invejavam muita garotinha de 15 anos, como costumava falar assegurando-se de sua aparência. E ela tinha toda a razão. Conheci muitas garotas que não chegaram e nunca chegarão aos pés da minha rainha. Tive mesmo uma PUTA SORTE em ter nascido de seu ventre.
E ao falar em garotas, a primeira pessoa a quem disse que estava apaixonado pela 1ª vez foi ela. Meu primeiro amor. Foi engraçado. Ela parecia mais feliz que eu, tenho quase certeza de que naquele dia vi uma lágrima cair de seus olhos e escorrer por seu rosto até que ela disfarçadamente passasse o dedo levemente para que eu não percebesse. Mas eu percebi. – Mãe, eu vi isso. Nós rimos. Disse-me que devia dar uma rosa ao meu amor. Foi o que fiz. Cheguei à escola e entreguei a flor aquela pequena princesa. Acho que ela surpreendeu-se. Olhou-me rápido, sorriu e saiu correndo para o banheiro. Eu ri depois disso. Ao chegar em casa, contei tudo que havia acontecido para ela. Ela me olhou e disse:
- Trate sempre uma garota como uma princesa e nunca faça ela chorar.
Levo esse e mais outros conselhos por toda a minha vida. E posso disser, que sem eles, pouco do que aconteceu em minha vida teria dado certo. Devo tudo isso a ela.
Mas nem sempre foi essa maravilha toda. Nossa relação não era perfeita. Eu nunca fui um filho exemplar. Que eu me lembre minha mãe nunca foi invejada por ter me dado a luz. Sempre fui teimoso, do tipo que achava que a razão estava sempre ao meu lado. Muitas das nossas brigas, foram causadas por isso. Ta, eu sei que não devia brigar com a pessoa que mais me amou, eu sei. E hoje me arrependo de muitas dessas brigas. Paro e penso, pra que? Perdi momentos que poderiam ter sido bons. Pelo menos podia ter aproveitado mais tempo sorrindo ao teu lado. Lembro-me de uma vez, estava na 8ª série, agora atual 9º ano, tinha 15 anos. Bom, pra começar, nessa época eu não queria saber de estudar. Realmente não dava valor ao esforço que minha mãe dava pra pagar a escola em que estudava, que, aliás, era uma das melhores da cidade. Sabia que ela queria que eu tivesse o melhor ensino, porém naquele tempo não entendia bem isso. Antes, estudava e sempre fiquei acima da média. Até em matemática. É, a querida matemática. Mas a partir do meio do ano, lá pra junho, eu comecei a deixar os estudos de lado. Minha mãe, é claro, passava horas falando que eu deveria me esforçar , que na minha idade ela não teve as mesmas oportunidades que eu, que eu deveria dar valor ao trabalho dela… Essas coisas de mãe sabe? Mas hoje vejo que ela tinha razão. Uns amigos meus tinham combinado de sair, sexta à noite. Andar de skate, sem rumo, sem nada. Simplesmente dar um rolê e deixar que a luz da lua iluminasse. Ah, e só pra deixar claro, sou apaixonado por skates. Mas enfim, voltando ao assunto, eles me chamaram. Animei-me, disse que sim. Chegou a tal sexta-feira. Ah, como esse dia me trás más lembranças… Minha mãe chegou em casa cansada. Estava com aparência triste. Era diferente nos outros dias, ela sempre chegava sorrindo e pronta para contar-me como havia sido seu dia. Eu havia acabado de tomar um banho e estava me arrumando no meu quarto preste a sair. Ela bateu na porta e abriu. – Onde você pensa que vai? – perguntou ainda com a bolsa no ombro. – Vou sair com meus amigos. Começou. Minha mãe dizia que como estava indo mal na escola, não sairia daquela casa até que minhas notas melhorassem. Não aceitei um não. Disse que iria sair e pronto. Disse que sou teimoso. Teimei, teimei. Até que chegasse a parte pela qual mais me arrependo. Olhei no fundo dos olhos da minha mãe e disse: - Ok, então. Só que se você não me ver amanhã na cama, saberá porque. Lembro-me dessas palavras como se tudo tivesse as dito há poucas horas. Ela bateu a porta e foi para o seu quarto. Se me lembro bem, acho que ouvi alguns soluços de choro. Pouco me importou. Peguei meu skate e sai. Bati a porta bem forte, só para provocá-la. Eu era mesmo um baita imbecil. Cheguei à pista de skate, todos os meus amigos estavam lá. Estavam com garrafas e mais garrafas de bebidas. Se dissesse que não sabia que levariam bebidas alcoólicas pra lá, estaria me fazendo de ingênuo e vitima, ou qualquer coisa do tipo. Sabia sim e até tinha dado dinheiro para ajudar a comprar. Passei a noite como se nada tivesse acontecido em casa. Nem me passou pela cabeça que minha mãe poderia estar atrás de mim, preocupada comigo. Mesmo depois de ter sido motivo de lágrimas a ela, sei naquele e em todos os outros momentos, mesmo sem merecer, ela deu-me todo o amor da sua vida. Eu estava sorrindo, conversando, farreando com eles. Bebi muito. Bebi demais. Não voltei para casa naquela noite ou naquela madrugada. Entrei em coma alcoólico. Apesar de todos que estavam comigo estarem trêmulos, conseguiram me levar para o hospital ou ligaram para uma ambulância, sei lá. Desde ai, já não me lembro de absolutamente nada.
Passei a noite lá. Minha mãe, ela mesmo, com a qual o idiota aqui havia brigado no dia anterior, estava sentada em uma cadeira pouco confortável, com um terço envolvido em suas mãos. Ela estava rezando por mim. Seus olhos estavam inchados de tanto pranto. Como eu era besta, deixei a pessoa que eu mais amei e amo na minha vida com os olhos cansados de tanto choro. Olhei para o lado, coloquei a mão em seu rosto e pedi que parasse de chorar. Ela levantou rápido da cadeira e me abraçou forte e acabou não me deixando falar nada. Apenas olhou em meus olhos, olhou para cima e agradeceu a Deus. Ela não me perguntou nada sobre o que eu tinha feito para chegar a esse ponto naquele momento.
- Mãe… – Comecei.
Silêncio. Pensei um pouco. Continuei com a voz fraca.
- Você tem razão – ela sempre tem – eu não devia ter saído ontem. Mas po, você sabe como eu sou… – disse-lhe muito, mesmo que ela não quisesse escutar, tentei explicar-lhe meus motivos. Por fim disse:
- Mãe, desculpa. E brigado por ta aqui, eu te amo.
Ao disse-me nada. Nem precisava. Só importava para mim que ela ouvisse aquelas poucas palavras. Ela me abraçou, beijei-lhe o rosto e ficamos assim por alguns minutos. Ela realmente me amava.
Mais tarde, sai do hospital e fomos para casa. Ela foi dirigindo e eu com cara de morto, estava no banco do carona. Começamos a conversar. Disse-lhe sobre minha raiva momentânea do dia anterior. Ela me disse que entendia e que já havia feito, por parte, a mesma coisa. Nós rimos em meio aquele clima estranho. De repente peguei-a olhando pra mim.
- Que foi mãe?
- Ontem quando você saiu, eu chorei. Quando você não voltou até de manhã, eu chorei. Quando me ligaram do hospital, eu chorei. Quando te vi naquela maca, eu chorei. Sou tão fra…
Não deixei que ela terminasse aquela frase. Era mentira. Interrompi.
- Para mãe. E daí que você chorou? Todo mundo chora. Você admite isso. Você é forte o suficiente pra ouvir dos outros qualquer coisa quando diz que chora. Você é a mulher mais forte que eu já conheci.
Paramos no sinal enquanto eu ainda falava. Ela pegou minha mão e deu um beijo. Ela começou a chorar. Quanto drama, pensei. Mas ela é mãe, talvez quando eu me tornar pai, eu entenda. Mas até hoje não consegui.
Pedi que parasse. Sei que ela tentou. Mas não o fez. Ai ela começou a chorar mesmo. Chorou, chorou e se tenho a dizer que mais ela chorou. Ainda bem que já ela já havia estacionado o carro na garagem. Abri a porta segurando na mão dela. Eu que tinha saído do hospital e ela quem estava precisando de cuidados era ela. Entramos em casa. Sentei direto no sofá e ela deitou no meu colo. Encolheu-se. Passava a mão em seus cabelos pequenos e por seu rosto. Achei aquilo estranho. Minha mãe não era disso. Seria mais da essência dela se ficássemos vendo um filme, sentados naquele mesmo sofá. Parecia uma criança quando tinha um pesadelo no meio da noite e gritava por proteção. Minha mãe estava com medo de alguma coisa. Só não sabia o que.
- Tenho que te contar uma coisa.
- Fala.
- Se lembra, que quando você tinha uns 5 anos e de umas semanas eu havia tendo muita dor no peito e cansada demais, por isso acabei passando uma semana no hospital? – ela começava a retornar ao choro – E que você ficou esse tempo na casa de sua tia? – passava-me pela cabeça uma leve lembrança, tinha só 5 anos – Naquela época você era pequeno demais para entender, e por isso não lhe contei o motivo. Disse apenas que tinha ficado com dor de garganta e depois com infecção, nada tão sério. Mas na verdade não era tão fácil assim, – agora o tom de sua voz estava ficando séria – quisera eu ser apenas uma dor de garganta.
- O que? – comecei a entrar em desespero.
- Não me interrompa, por favor. Talvez não consiga mais terminar de falar.
Calei-me e deixei que ela continuasse a falar, agora sentada ao meu lado, de lado, olhando em meus olhos.
- No meio da semana, acabei descobrindo o motivo daquelas dores. Na quarta-feira eu infartei. Eu descobri que tenho isquemia do miocárdio, o infarto, – essa foi a minha vez de chorar – é uma doença que não tem cura.
Eu estava paralisado e lágrimas estavam caindo no meu rosto. Não sabia o que fazer. Nem o que falar. Não tive reação. Ela continuou:
- Meu amor, não chore. Me deixe terminar. Ontem eu havia marcado cardiologista à tarde. Eu fui com medo. E ainda estou com medo. – seu olhar agora era cabisbaixo – Ele me disse que meu estado piorou. Mesmo com todos os remédios que venho tomando, uns não têm feito tanto efeito. E que daqui a uns meses, terei de fazer uma cirurgia para tentar reverter o caso… Mas eu não sei. Não tenho mais certeza de nada. Apenas de que eu te amo mais do que qualquer coisa.
Abracei-a. Agora eu estava com medo. Meu chão caiu. Meu mundo desmoronou. E agora? Minha mãe podia morrer a qualquer segundo e eu estava sem reação. Ficamos abraçados, não queria solta-lá. Não queria que se fosse.
- Não pode ser. Isso não é justo! Por que, logo com você mãe? Não, tem que ter uma solução… – eu me levantei e fazia gestos desesperados.
- Filho, não dá mais. Só quero aproveitar o tempo antes da cirurgia pra ficar com você, só com você. Vivendo mais um pouco com você.
Discuti. Retruquei. Mas parei. Não queria brigar. A partir dali, vivemos juntos, cada segundo como se fosse o último. Nós ficávamos vendo filmes, bebendo coca-cola, conversando, cantando, dançando e tirando fotos desses momentos. Eu guardo todas, sem exceção, até hoje em um baú pequeno que fica na minha estante. Fazíamos de tudo, ou pelo menos quase. Nunca mais tocamos no assunto “doença”. Eu queria fazer daqueles dias, os mais felizes da minha mãe. E acho que estava conseguindo.
Algumas semanas se passaram depois que descobri tudo aquilo. Na verdade foram apenas 3. E desde lá, eu sempre vinha dormindo no quarto da minha mãe junto com ela. Era tão bom. Calor de mãe sabe? Me sentia mais protegido e sabia que ela se sentia mais protegida do meu lado. Ta. As semanas se passaram. Chegou o dia da cirurgia. De todos os outros, foi sem dúvida o mais tenso. O que eu mais tive medo. Ia ser pela noite, duraria horas e horas. Por mais ela não quisesse, disse que iria passar todo o tempo na sala de espera do hospital. No caminho para o hospital nem eu, nem ela falamos algo. Ficamos calados. Não. A situação convidou com que o silêncio existisse. Chegamos. A cirurgia já ia começar. Já estava tudo pronto. Eu estava chorando e rezando… Sei lá que prece foi aquela. Antes de entrar para a sala onde tudo podia mudar, olhei em seus olhos e disse que a amava, ela olhou em meus olhos e respondeu:
- Meu filho, meu amor é para sempre.
Essas foram suas últimas palavras. Droga. Estou chorando. De novo. Eu estava bastante ansioso. Meu coração estava em minhas mãos. Por escolha própria, preferi a solidão naquele dia, queria ficar sozinho. Seria tudo muito clichê alguém estar ali comigo dizendo-me coisas banais. Foi melhor assim. Meus olhos já estavam quase a fechar, até que o médico apareceu. Levantei do sofá rápido.
- Como foi a cirurgia, Doutor? – sentia-me sufocado, a agonia me dominava – Ela esta bem, não está?
- Você está sozinho aqui? – sua voz era calma, mas não ajudou em nada.
- Estou. Ela está bem? Doutor, ela esta bem? – levantei o tom de voz.
- Nós fizemos de tudo, mas infelizmen…
Parei. Meu mundo caiu. Já sabia o que havia acontecido. Minha mãe havia morrido. Tudo havia dado errado. Joguei-me no sofá e chorei. O pranto foi grande, diria que o maior da minha vida. Tive vontade de gritar. MEU DEUS, JUSTO COM A MINHA MÃE? Continuava a chorar. Me deram um calmante. O mesmo médico que me deu a pior noticia que já recebi, tentou me consolar. Não conseguia me acalmar. Queria poder voltar no tempo. Queria que ela estivesse aqui, do meu lado. Lembro-me do seu sorriso, do seu olhar… Não acreditava no que estava acontecendo. Meu coração estava feito um vidro quando caia no chão. Aquele momento me deixou mais destruído que qualquer coisa que você possa imaginar. Desnorteado, descreve como eu estava. Minha mãe se foi. A melhor pessoa que eu já havia conhecido havia partido. Um exemplo de pessoa, de amar, de… De tudo. Minha maior fonte de inspiração e amor estava reinando em outro lugar. Minha rainha foi-se, mas o amor não. Como ela mesma disse, esse amor é para sempre. Eterno será. Infinito será pouco. Incansavelmente eu vou te amar, mãe.



